do livro Poemas Sem Poesia

Herói Póstumo

Noite Feliz A Procura
Noite a Noite Fome new Criatura
Triste Realidade Catarse new Piracema new
Manhã na Repy Sombras new Nossa Imagem e Semelhança new
Soma new Insônia Entre o Cálice e a Serpente

Poemas publicados em outros livros ou inéditos

O Princípio

Antes que Anoiteça Eu e o Vento
Abutre Entre a Dor e o Gatilho new Rio Efêmero
Sarro O Beijo e a Cruz new O Saber e o Seio

A Arte do Ser

 


Herói Póstumo

Esqueça o resguardo
Saia do quarto
Erre
Mostre as tripas aos abutres
Provoque
Respire ar contaminado
Álcool, éter, clorofórmio
Coma fábulas, mitos 
Mortais drogas morais 
Vomite ira nos deuses
Ame um amor alucinógeno
Andrógino
Lave a alma em sangue quente
Sangre a mente
E...como se não bastasse...

Sobreviva!
 


Nossa Imagem e Semelhança

No onde se vai dormindo
No mundo agora lido
Antes desconhecido
No maior dos labirintos

Nem tudo é dor
Nem tudo é triste
Nem tudo é lindo
Mas tudo existe

E quem se aventurou
E quem ao ler, em si pensou
Em algum lugar me achou

Existo agora dentro de quem
Já existia em mim...

 

Noite a Noite

Sexo
Sem nexo
Impura me procura
Afeto
Noite escura
Sentimento que não dura
Beijo
   
Abraço
        
Aventura
Gozo
   
Medo
        
Amargura
Forte cheiro invade a rua
Me entristece
Me tortura
Não resolvo essa loucura

 

 

 

Insônia

E embora cansado
Não encontro o sono
E no passar das horas
O passar dos sonhos... 

E embora vivo
Não encontro o amor
E no passar das horas
O passar da vida... 

E embora a hora
Não encontro a forma
E no passar do passo
Passar o passado... 

E embora morto
Não encontro a paz
E no passar das horas
O passar demais...

 

 

Manhã na Repy

A festa acabou
O que era gozo
Agora é pura sujeira
Piso grudento
Copos no chão
Cigarros na mesa
Garrafas quebradas
Toalhas meladas
Fim da brincadeira 

Azedo beijo a bafejar
   
uísque, vinho, cerveja
Vômito quente
Pedaços de gente 
   
no vaso, no tanque
   
na boca, na mente 

Já  desligaram o som
Mas o zumbido continua...
E a sensação de anestesia
   
que meu corpo sentia
Até há  pouco me protegia
   
da dor que eu não queria 

Bate papo, cantoria
   
dança, briga
O fogo ardia
Nas mentes só sexo, orgia
Mas minha cama... continua vazia

                                                                             

Sombras

(Para Emily, com carinho)


Longos caminhos
Tortuosos ventos
Pedaços de coração
Lâminas do tempo
O que são?

São o que sou
Sou sem saber
O que ser

Pobre você
Que a mim tem
Não tem ninguém!

Quem é você?
Alguém, mas quem?

Meu vago bem
Meu querer alguém...
Mas quem, se nem uma luz 
              se tem!

 

Noite Feliz

Menina
Nua
Quente
Molhada
Ardente 

Me chama
Me quer
Me implora um  affair  

Só goze
Não pense
Não cobre
Não tente 

É só por esta noite
Infelizmente!

 

 

Entre o Cálice e a Serpente

Em noites como esta...
Você espera...
Em noites como esta...
Nada é festa
        
em noites como esta...

E a vida a escorrer pelo ralo
Abruptamente
E a morte a escorrer pelos braços
Lentamente 

Em noites como esta...
O pulso pesa
Em noites como esta...
Nada resta
        
em  noites como esta... 

E o corpo quente a escorrer pela mente
Abruptamente
E a navalha a escorrer pela alma
Ininterruptamente 

E gotas...
        
vermelhas
E gotas...
        
transparentes 

Em noites como esta...
Somos
Em noites como esta...
Fomos
Em noites como esta...
(Há sempre uma saída)

 

 

Fome

Poetas e Poesias
Sexos
À mercê de suas malícias
Tenho fome 
De puras carícias...

E na dor
E no gosto do vazio
O tiro 

Meu corpo
Por sua alma
Minha alma 
Por seu amor
Meu amor 
Por sua vida
Minha vida
Por seu perdão

 

 

A Procura


Deito 
Ligo um som
Ascendo um cigarro...
Fumaça na mente me faz lembrar da gente...

Onde estou que não me encontro!...
A cada saída um beco
A cada música alguém
Acho que já fumei mais de cem
Parece que esse dia não vem...

Olho pela janela
Luzes que não dizem nada
Ruas vazias
Prédios sem ninguém
Acho que já fumei mais de cem
Parece que esse dia não vem...
Parece que eu também...

 

Criatura

E Deus...
Abandonou escolas
Abandonou igrejas 

Criatura sem criador
À deriva...
   
mente e coração
Não sabe a quem
   
pedir perdão 

E a loucura como chão
E olhos na imensidão
E tristezas
E alegrias
   
em vão... 

E entre as cinzas
   
o vento
E a ausência
   
de tamanho
   
de tempo
   
de razão
        
para um lamento...

 

 

Soma

Uns e outros
Corpos
De nossas entranhas
Expelidos
Tumor arrancado
Membro amputado


Somos coisa
E como coisa 
Uma coisa só
Pedaços de outros
Outros pedaços de nós
O que somos?
A ilusão de sermos...

Pele porosa
    secreções
         vísceras
              gosma
No beijo
    no suor
         no sexo
Nos aposentos anexos...
    comemos
         evacuamos
              transamos e... 
Pensamos que existimos

Triste Realidade

E o corpo que era seu
Há muito morreu
Apodreceu
Como o meu...

Vivos em podres corpos
Presos
Cadeias humanas
Encarnados em secreções
Frias
Nojentas
Solitários pedaços
Sem almas
Sem perdão

 

 

Catarse

Porta de banheiro
Porta de latrina
Urina no chão
Odor nas narinas
Palavrão

Cenas obscenas
Vômito cerebral
Descarga de impulsos
Espelho de recalques
Mundo animal

Espaço de alívio
Cama de bêbado
Vaso sujo...
Conversa de mulher
Papo de homem
A mesma ilusão

Porta de banheiro
Aqui e ali a mesma secreção
Descarga de ereção
Masturbação
Ejaculação de emoção

 

Piracema

Nada . . .
Apenas corpo
    Apenas mente

Nada . . .
Indiferentes bares
    Opacos olhares
         Areias sem mares...

Chega !

De repente...
No encanto das águas
    O encontro das almas...

De repente...
Meio peixe
    Meio gente...

Novo ventre
    Lágrimas
         Sangue quente

Humano 
    Simplesmente...                                                                      

 

   
O Princípio

E é chegada a hora...
Não adiantam medos
Não adiantam gritos... 

E é chegada a hora...
Não adiantam súplicas
Não adiantam deuses... 

E vive a alma
O que a carne já não sente...
E correm lágrimas
Sobre um corpo já não quente... 

E a mente já não sabe
             
a quem pertence
E o corpo morre
             
indiferente
Entre os braços
             
de um ausente...

 

 

Antes que Anoiteça

E antes que amanheça
Beba...
E antes que anoiteça
Coma... 

E grite as vontades
E vomite as verdades
Na ilusão do novo dia... 

E antes que amanheça
Corra...
E antes que anoiteça
Morra... 

E grite as verdades
E vomite as vontades
Na ilusão da eternidade...
                         

E antes que aconteça
Mate...
E antes que anoiteça
Desapareça...
...como quem...
                  
nunca existiu...

 

 

Eu e o Vento

Porque não agüento
Porque sinto seu lamento
Vivo no vento... 

Porque não entendo
Porque sei que havia tempo
Sofro esse tormento... 

Porque antes não é agora
Porque sei que não é hora
Vou embora... 

Porque hoje já é ontem
Porque amanhã ainda não sei
Quero o que nunca vem...

Porque sobre o tempo:
Nunca
Porque sobre a dor:
Talvez
E a verdade:
Nunca é bastante o que se fez

 

 

Abutre

Algo de fora
- lâmina
Não sei se ontem
Não sei se agora

Devora...

Medo, paixão, excitação
Céu, estrelas
Silêncio... 
Frios corpos no chão 

Antes do dia
Antes da noite
Vem... 

Vem neste exato momento
Encontrar o que você... 
         tinha dentro

 

 

Entre a Dor e o Gatilho

Drauzio, Ricardo, Bento...
São tantos, são tantos...
São tantos
Que não me esqueço

Bailes, amantes, bares
Drogas, amigos, pares
Tiros, seringas - carne...
São cinzas... são cinzas... são cinzas...

Na terra, na grama
                   no vento...
Fumaça de velas nos Templos

E nas lavas desse mar
Foram lágrimas a esperar...
E na onda 'deixa estar'
Não pudemos ajudar...

Respirar, esperar, respirar
Esperar, respirar, respirar...
São cinzas, são cinzas, são cinzas...

E nem culpados
         nem inocentes...

Apenas, de repente...
Entre o Cálice e a Serpente
Não puderam encontrar
                        outra saída... 

 

Rio Efêmero

Rio de pedra, frio asfalto
Corre carro, corre, corre...
Que o dia já passou

Sangra a mente a procura de gente
Corre mente, corre gente...
Que a noite já passou

No ar, no céu, no mar
Corre carro, corre, corre...
Que a vida já passou

Amor, amor, amor...
Onde estás
Que não estou

 

Sarro

Tocos de cigarro
Bocas de sarro a lamber:
    escarros

No amarelo dos dentes:
    a falta

- Aí, seu moço
  me dá uma bituca?
  Um inteiro! Demais!  
   
E logo vem outro atrás
    - é bituca rapaz?

- Não. Agora o escarro é meu!
                 

O Beijo e a Cruz

 É triste...
Essa saudade
É triste... 
Essa distância
É triste...
Essa verdade
É triste... 
Já ser tarde...

Cada um no seu caminho
Alguns pelos atalhos
Alguns pelos abismos
 - antecipações - 
              nada mais...

Desencontros
              desencantos
E a realidade do ser pouco
Do nem conseguir ser louco

O amor é uma grande ilusão...
A morte... não!

 


O Saber e o Seio

Não sei
Se sei-o
Se não sei-o

Sem seio
Não saboreio 
Não sei-o

Sem seio
Não sei
Não saberei

Não-seio
Ser
Não saberei

 

 

A Arte do Ser [2]

 Entre Criador e Criatura,
         
no espaço transicional entre o Ser e o animal:
         
metáforas, metáforas...
Símbolos do que fomos, do que somos,
         
do que gostaríamos de ser.
Brincamos com a ausência,
         
dor e beleza de nossa existência...
Húmus a impregnar letras, tintas,
        
 rabiscos, cerâmica, porcelana, bronze...
E em poesias e pinturas,
         
desenhos e esculturas nos transformamos.
E Criador e Criatura se confundem.

Somos barro, somos barro...  
Somos todos, somos tantos...  

E no sopro do olhar que nos contempla,
    
     e só assim: a vida. 



[2] Para a II Mostra de Arte da SPCamp - Sociedade Psicanalítica de Campinas / 1997