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Crônicas
A História Sem Fim...
Há algum tempo, num grupo de leitura de poesia, alguém comentou sobre um livro
chamado A História Sem Fim de Michael Ende. Conta mais ou menos assim:
Um menino chamado Bastian, ao entrar numa loja, fugindo de outros garotos, depara
com um livro que atrai sua atenção. Toma-o emprestado e, escondido no sótão do colégio,
começa sua viagem... O mundo de Fantasia está sendo destruído, devorado pelo terrível
Nada. Para que seja salvo é preciso que um menino do mundo de Realidade dê um nome
para a Imperatriz-Criança de Fantasia: "Só o nome certo confere a todos os seres e a
todas as coisas sua realidade..." Seus habitantes o aguardam desesperadamente. Esse
menino é Bastian que lendo a história acaba por entrar nela.
Quando lá chega quase tudo está destruído pelo Nada, restam apenas a Imperatriz
e um grão de areia. É necessário que Bastian comece a desejar para que tudo recomece...
E é o que ele faz. Encorajado pela Imperatriz-Criança, começa a viajar e a recriar o mundo
de Fantasia, um mundo, incomparavelmente, mais atraente que o seu onde a morte da mãe
e a ausência do pai atormentam sua alma. E Bastian deseja mais e mais. Mas a cada desejo
tem um pouco de sua memória de Realidade apagada. Começa a esquecer todo o seu
mundo. Vai tão longe que não consegue lembrar-se de mais nada, nem do seu próprio nome.
Sem memória e infeliz, ele procura a saída de Fantasia, mas, sem sua identidade,
encontra-la seria impossível. Não fosse a ajuda de um amigo, a quem havia contado algumas
lembranças, ele estaria perdido para sempre. E a saída estava na fronteira entre Fantasia e
Realidade...
Fiquei impressionado com a história e disposto a ler o livro. Mas, amparado pela eterna
"falta de tempo" que persegue o mundo dos adultos, preferi assistir o filme. São três. Assisti
apenas o primeiro. Encontrei-o numa sessão de filmes infantis. Pena os adultos não
freqüentarem, de vez em quando, a sessão infantil das vídeo locadoras; parece que só os
que têm filhos têm essa capacidade...
E desde então tenho pensado nessa história e sua relação com o Ser Humano e a
Psicanálise. O bicho homem precisa de Fantasia, precisa desejar... Sem Fantasia ele perde a
capacidade de ter esperança, sonhar, amar, criar... Torna-se um autômato, semente jogada
no concreto. E precisa de Realidade. Sem ela também não sobrevive. Imerso na loucura,
desintegra-se, estilhaça-se; apenas fome e alucinação...
E me vejo no consultório: tentando trazer Realidade aos lunáticos, dar-lhes corpo, e
Fantasia a corpos sem alma. E me vejo na fronteira, lugar perigoso e fascinante, entre o Ser
e o Não-Ser.
Somos todos um pouco Bastian... Entramos no mundo de Fantasia ao tirarmos os pés
do chão e deitarmos no divã. Nele temos a chance de recriar e retornar para a nossa
Realidade mais inteiros. A saída está na fronteira...
[--------]
Hoje saí para visitar um amigo. Um amigo que não vejo há onze anos. Ninguém mais
o viu ou ouviu falar dele. Não aparece em festas, não namora, não se casou, não teve
filhos. Saiu de casa há onze anos e não mais voltou. Saída difícil, precisou ser carregado.
Estava dormindo e todos fizeram silêncio para que ele não fosse incomodado, para que
não acordasse: sinal de respeito. Embora fosse véspera de carnaval, estavam todos
tristes. Mas acho que nem todas as tristezas juntas chegavam perto da tristeza desse
meu amigo. Quem poderia imaginar que ele fosse triste assim...
Fiquei sabendo o seu novo endereço naquela época mas nunca fui visitá-lo, nem
no dia da mudança pude vê-lo, estava viajando. Durante todos esses anos passei perto,
mas nem sempre me lembrava dele ou não tinha coragem de chegar assim, de repente,
sem avisar, embora ele estivesse sempre lá, disposto a receber quem quer que fosse.
Mas amigos sentem saudade, e saudade move corações e pernas.
Conhecia o lugar - Azaléia - mas faltava-me o endereço exato. Qual não foi minha
surpresa ao chegar à porta da cidade: um colega, amigo de outro amigo meu, era o
responsável pela administração local. Com o nome e a data da mudança fornecidos, em
poucos minutos o problema estava resolvido: Quadra 16 - B - 005.
Não pude deixar de elogiar sua nova casa. Muito verde, sol, pássaros, flores e um
delicioso silêncio cortado apenas pelo vento. Encontrei o folgado dormindo,
tranqüilamente, à sombra de uma árvore. Fiquei um tempo usufruindo daquela paz.
Cheguei a ficar com preguiça e vontade de dormir também, mas seria uma falta de
delicadeza fazer isso naquele momento. Rezei. Não que eu seja religioso mas por respeito,
além do mais, talvez isso possa ajuda-lo. Vi um revolver e senti muita tristeza...
Saí para dar uma volta. Sabia de outro amigo que, há pouco, também se mudou
para lá e resolvi visitá-lo de última hora. Endereço: Quadra 02 - E - 170. Achei logo.
Como acabou de chegar, sua casa ainda não está terminada. Mas a grama cresce
rápido e logo estará verde como as outras. Por enquanto ainda é uma ferida sobre o
tapete que cobre a cidade. Mas sua casa estava toda florida, sinal de que alguém
esteve ali antes de mim e se lembrou de levar um presente. Vi uma seringa e fiquei
triste...
Encostei-me numa das árvores e fechei os olhos por um minuto. Imaginei que
um dia estarei morando com eles. Terei bons vizinhos. Tentei entender porque tantos
amigos estão se mudando para lá. Acho que procuram a paz. Cada um tem seus
motivos, cada um tem seus caminhos. Talvez um dia eu tenha os meus. Talvez, um
dia, também, venham me visitar e eu não me sinta tão sozinho.
Hoje tive coragem, hoje pude encontra-los. Hoje saí para visitar um amigo...