Contos

Marcas

	     Jogaram um rato pelo buraco do teto. Havia me esquecido que existe uma 
comunicação entre este mundo e o outro. Talvez o dia esteja nublado, talvez seja noite ou talvez até a luz tenha evitado entrar aqui deixando o buraco enegrecido como as paredes. De qualquer maneira, o buraco passou desapercebido já faz um tempo, assim como já passam desapercebidos os corpos dos meus amigos em putrefação ao meu lado. No início podia sentir seu cheiro, agora, nem isso. Se estivessem vivos não poderia mais chamá-los de amigos, pois, neste momento, estaríamos todos nos matando pela posse do rato. Agora estou só e ninguém se move com o baque do pequeno corpo no chão. Só consigo estender o braço para pegá-lo porque o braço pesa pouco. De tão fino e leve nem parece o meu. Gasto um tempo a olhá-lo pois aqui o tempo sobra... Penso em Kafka. Imagino que comê-lo seja um ato de homicídio seguido de canibalismo. Levo um tempo para me conscientizar de que ele já está morto e de que Kafka não virou rato, virou barata.
Não tenho fome mas, ato reflexo, começo a devorá-lo, devagar. Ato doloroso pois tenho alguns dentes moles e minha gengiva sangra ao menor toque. Tenho grande dificuldade em cortar sua pele. Deixo a cabeça. Sinto-me empanturrado, tenho náuseas que logo passam. Olho para o pequeno buraco no teto e imagino que em algum momento irão jogar outro, fazendo com que o tempo se torne ainda mais longo... Respiro fundo, como alguém que está cansado... Recosto a cabeça na parede, fecho os olhos, tento dormir, tento morrer... Não consigo precisar quanto tempo permaneço assim, imóvel, semivivo, anestesiado. Não consigo precisar há quanto tempo estou aqui. Atordoado, ouço barulhos que me parecem explosões, gritaria... Penso ver fumaça entrando pelo buraco... Acho que sonho ou alucino. De repente, num estrondo terrível, a parede com a enorme marca da suástica vem abaixo... e a luz quase me cega.
Sobre Mim Já é noite e finalmente as pessoas começam a chegar. Está chovendo, por isso chegam a galope, esbaforidas e mais tarde que o habitual. Também, a chuva faz com que eu me sinta mais frio que o habitual. Cá estou, sozinho em minha casa. Casa meio de canto, fazendo vizinhança com outras duas e não com mais quatro como a maioria. Até isso faz com que me sinta mais solitário nesta noite chuvosa. Primeiro um, depois outro, meus dois vizinhos já estão acompanhados, senão aquecidos, pelo menos não mais sozinhos. Ninguém gosta de canto. Começo a ter saudades das noites de verão. Eram noites que, na verdade, começavam à tarde para mim. Muita gente em volta e logo eu estava em brasa, aquecido, trabalhando, fazendo parte da roda. Gosto de ser o que sou. Conheço muita gente, gente tão diferente que vocês não podem nem imaginar. Gente nova, velha, careta, liberal; conheço tímidos, desbocados, santos e perversos. Fico aqui a noite toda ouvindo as conversas. Vivo a cada noite uma vida diferente. Sonho ser um deles. Imagino com tanta força que, às vezes, na hora que se levantam para ir embora tento me levantar também, esqueço que não tenho pernas, que só saio do lugar se me carregarem. Já tive alguns colegas que foram raptados e nunca mais voltaram. Fico aqui pensando que fim teriam levado, onde estariam morando, mas acho que, talvez, tenham vidas monótonas por viverem sempre com as mesmas pessoas. Mas aqui estou eu falando, falando, e nem percebi que já se passou mais uma hora inteira e ninguém perto de mim. Alguns chegam e olham para minha casa, ameaçam ficar, mas acabam desistindo. É, ninguém gosta de canto. Mas mais cedo ou mais tarde só restará a minha, não terão escolha. Também tem noites que fico cheio. Fico tão cheio que não enxergo nada, às vezes nem ouvir direito posso. Colocam papel, tampas, caroços, pedaços de sanduíches... Imaginem se é possível: pedaços de sanduíche em cima de mim! Que desrespeito! Acho que certas pessoas me confundem com lata de lixo. Que absurdo! Logo eu, tão elegante, elemento indispensável, presente nos ambientes mais requintados do mundo, feito para agüentar fogo. Pedaços de sanduíche, caroços! Às vezes, apesar de rodeado por várias pessoas a noite inteira, nem me notam. Fico aqui como se não existisse. Acontece de nem me tocarem, nem para brincar um pouco comigo ou para me mudar de lugar. É impressionante. Como é possível? Sei lá, tem tanta gente estranha nesse mundo. Eu fico na minha, só observando e, como já disse, quando posso pego emprestado a vida de alguém para viajar nos meus sonhos. O lugar está enchendo, já vejo muitas pessoas em pé. Não demora e terei companhia. Alguém se aproxima. Não, não apenas um, são quatro, dois casais jovens, jovens e bonitos. Que bom, logo estarei aquecido e vivendo coisas que gosto de viver. Tomara fiquem até o amanhecer que hoje estou disposto. Estão se arranjando à minha volta. Opa! Um deles me pegou e me colocou do outro lado. Mão quente, que bom, já tinha cansado de ficar nessa posição. Parecem alegres, a conversa deve ser agradável, descontraída. Mais tarde devem contar piadas sujas. Vai ser uma ótima noite! Epa! Outro me pegou e está me segurando... Será que vai me raptar ou coisa assim, já não me larga há um minuto! Adoro essa massagem nas minhas costas... Agora está me levantando, tenho um pouco de medo das alturas, sinto vertigem. O garçom se aproxima e eu continuo nas alturas. Por que não me devolve à mesa? Sinto um mau pressentimento... O garçom me agarra, me joga na bandeja e me leva embora....... Saio de cena. Não sou dono nem da minha própria vida.